Sem nostalgias estamos aqui

a completar 18 anos.

Não estamos olhando para trás, mesmo que tudo nos leve a crer que já vivemos tempos muito melhores, em todos os sentidos. Tememos estar obcecados com uma política atual cheia de entraves para o fenômeno cultural e lamentamos todos os 365 dias, entre setembro de 2017 e setembro de 2018 e o que aconteceu com nosso país. Efetivamente não conseguimos mudar nada desde então... e continuamos as lamúrias.

Sentimos um leve tremor ao pronunciar a palavra Brasil. Estamos cheios de traumas, pesadelos, noites mal dormidas, endividamento moral, financeiro, estético, cultural: nós, brasileiros, estamos sofrendo. Odiamos nossa própria imagem, neste momento.

Os cinemas viveram o pior ano. As bilheterias despencaram. Os independentes viveram o pior ano. Os jornais, as revistas, a mídia digital, a televisão, o comércio, o atacado e o varejo, viveram o pior ano. Festivais e eventos culturais, em todas as áreas, foram cancelados. Levamos a vida, sem muita energia, sem acreditar que estaríamos evoluindo para alguma reconquista de espaços que foram paulatinamente perdidos...

Continuamos o trabalho de escolhas curatoriais, de trazer filmes internacionais para o mercado brasileiro, de lançá-los com todo cuidado comercialmente nos circuitos dos cinemas, apostando no cinema de arte, nos clássicos, nos independentes..., e no cinema como experiência cultural sem limites, e sem conflitos com essa ideia, seguimos.

A Zeta Filmes completou 20 anos, em 2018. E desde 2013, como distribuidora de filmes estrangeiros independentes, já lançou no mercado exibidor cinematográfico brasileiro, 59 filmes de longa duração.

Neste ano, ficou no ar uma luta diária ingrata mas tivemos algum alento em movimentos legítimos sociais pela luta das representatividades das mulheres, transexuais, negros e outras minorias buscando seu lugar em um mundo sórdido, de violentos retrocessos direitistas, de falas absurdas, de uma cisão entre classes, dentro da mesma classe. De uma política doente. Aos amigos restaram conflitos. A verdadeira face política; direita, esquerda, centro: Radicalizou-se... Como nunca havíamos nos tratado assim, as desavenças foram inúmeras, separações, brigas, energia gasta em vão.

Poderíamos apenas dizer um basta para tudo: o que é um Indie Festival quando se tem este cenário? E quem sabe seguir outros caminhos? Mas.. Não foi por nostalgia, nem pela missão política ou intelectual que estamos aqui hoje.

(A nostalgia é um fenômeno tão comum hoje na nossa cultura, se consagra como o ‘grande sentimento universal’ pela perda de tudo, pela perda por exemplo dos cinemas de rua, pela ideia de que tínhamos um mundo melhor, falseado pelas fantasias da lembrança. A nostalgia é mesmo um sentimento universal, que nos coloca, às vezes, engessados diante o futuro. Nos acomoda diante o presente. Como se não fosse mais possível mudar, ficamos comportados. É compreensível que se no passado era tão bom e celebramos isso, apesar de todas as perdas, é por que apenas não temos a energia para sair desse lugar e tornar melhor o aqui e agora?)

O Indie Festival continua vivo, aqui hoje, por uma questão ontológica. Fomos, somos algo além de nós mesmos, além do indivíduo, além de uma empresa, algo que se tornou um fenômeno público, que gera desejos, que tem escuta, fala, e uma importância que não é vaidosa, egocêntrica ou puramente ególatra, é uma essência coletiva. Mesmo sendo privados, somos coletivos. Porque nossas escolhas passam a refletir no olhar, nos sentidos dos outros. Um projeto de 18 anos, conceitual, e questionador. Recebemos mensagens, pequenos bilhetes, comentários, pedidos: “não morram, não acabem, não deixem de existir. ”

Como se existir fosse uma escolha? Uma existência que não se rompe assim porque ela almeja um desejo que não é individual.

E assim prosseguimos... e quando pensamos que temos na verdade uma missão (palavra excessivamente empresarial para uma empresa não convencional) talvez para o INDIE esta palavra “missão” tenha algum sentido meio mítico, meio contestador, porque para o cinema como diz um personagem do Godard “não há regras”. “Não há regras e por isso as pessoas adoram o cinema...” . E as pessoas adoram os independentes, os filmes de arte, os filmes clássicos. Essas mesmas pessoas estão cansadas do cinema comercial, dos shoppings, da banalidade, do pastiche, da coisa toda entre Netflix, sofá da sala e cama. As pessoas ainda desejam a rua, resgatar a emoção da sala de cinema, da tela, da presença, dos cheiros, do burburinho em torno dos filmes, da conversa nas filas, do café forte, das opiniões controversas. As pessoas querem viver a vida, da qual o cinema é parte fundamental. E um festival é tudo isso com uma certa intensidade. E assim será.


O cinema está sempre em transformação... no Indie festival 14 diretores, com filmes de 13 países diferentes, foram selecionados criteriosamente de forma a refletir o que o cinema mundial produz nas suas formas artísticas, conceituais, experimentais mais livres e radicais. O espaço aberto de um festival de cinema que precisa conectar o espectador a esse mundo estético e mutante. Com curadoria de Daniella Azzi, Gustavo Beck e Francesca Azzi.

São representantes, no INDIE 2018, dessa grande energia e inspiração transformadora do cinema o filipino Lav Diaz, os chineses Hu Bo, Bi Gan e Liang Ying, o argentino Mariano Llinás, o catalão Albert Serra, o japonês Ryusuke Hamaguchi; o artista austríaco Johann Lurf e o veterano norte-americano James Benning; e os novos talentos representados pela alemã Helena Wittman,a húngara Zsófia Szilágyi, a polonesa Jagoda Szelc, o mexicano-suíço Pablo Sigg e o italiano Fabrizio Ferraro.


O mágico Lav DIAZ consagrado por suas longas e originais narrativas no cinema independente mundial, transmuta sua criação a cada filme. Estação do diabo (230 minutos) é tão original na forma de contar sua história, e tão atual no tema político quanto sensível na poesia, uma experiência incomum que resvala na dor e opressão. Reconhecido pela longa duração de seus filmes, Diaz já disse, diversas vezes ao longo dos anos, que não rege suas obras pelo tempo, mas, sim, pelo espaço e pela natureza. Lançado na Berlinale deste ano, inédito no Brasil, estreia no INDIE 2018, sua ópera rock, um musical político (em que Diaz compõe todas as músicas), que reflete a ditadura e os tempos sombrios que vive seu país, as Filipinas.


O desmantelamento social em Hu BO É do jovem escritor e diretor chinês Hu Bo um dos mais importantes filmes do ano: Um elefante sentado quieto. Hu, que cometeu suicídio em 2017, aos 29 anos, logo após concluir o filme, fez desse seu primeiro e último longa, um manifesto da sua existência. Um filme colossal e singular, com quase quatro horas de duração, em que Hu nos leva a acompanhar um dia na vida de quatro moradores de uma pequena cidade no norte da China. “As coisas verdadeiramente valiosas estão nas rachaduras do mundo, e não de maneira pessimista”, diz Hu Bo.


O preciosismo fantástico de BI GAN O crítico francês Pierre Rissient, falecido um pouco antes do Festival de Cannes, escreveu: “Agora, sete meses após o coração de Hu Bo, diretor de Um elefante sentado quieto, parar de bater tragicamente, surge o último filme de Bi Gan, Longa jornada noite adentro. Eu diria que é uma geração da poesia ardente”. Para Rissient, Hu Bo e Bi Gan seriam a oitava geração do cinema chinês. E o jovem diretor chinês Bi Gan está, inédito no Brasil, com Longa jornada noite adentro, seu segundo filme, lançado na competição de Cannes 2018. Perfeccionista e meticuloso, Gan fez um romance, noir, sci-fi, de um homem em busca da mulher amada.


A força da independência latino-americana em Mariano LLINÁS na exibição do seu filme argentino La Flor, com seus 808 minutos (quase 14 horas). La Flor, realizado nos últimos 9 anos, apresenta quatro atrizes - Pilar Gamboa, Elisa Carricajo, Laura Paredes e Valeria Correa – interpretando vários personagens, em diferentes histórias e gêneros. Para Llinás a ideia é que “os espectadores acompanhem as carreiras dessas atrizes se desenrolando diante dos seus olhos, como parte do mesmo filme. A ideia é que um filme seja uma série de filmes, uma era na vida de quatro pessoas, e que o cinema seja capaz de mostrar essa passagem do tempo, esse aprendizado, esse processo”. La Flor será exibido em três partes, em dias diferentes.


A verdade cruel em Liang Ying O governo chinês, em 2012, perseguiu o diretor Liang Ying e sua família porque queria proibir a exibição internacional do seu filme When Night Falls, exibido no INDIE daquele ano, sobre um jovem que mata seis policiais e é condenado à morte pelo governo chinês, que decreta sua sentença sem respeitar as formalidades legais e a luta da sua mãe por justiça (anteriormente, o Indie 2006 também exibiu seu segundo longa A outra metade). Liang Ying desde então vive exilado em Hong Kong. Em Locarno 2018, Ying lançou seu primeiro longa em cinco anos, A viagem da família, uma história autobiográfica, sobre uma diretora de cinema chinesa, refugiada, que junto com o marido e o filho, reencontra com a mãe, que não via há anos, em Taiwan numa pretensa viagem de turismo. Liang Ying luta por sua liberdade artística.


O ordinário/extraordinário em Ryusuke Hamaguchi Com um talento nato para contar histórias cotidianas e ao mesmo tempo extraordinariamente estranhas, o diretor japonês de Happy Hour, um filme de quase 5 horas exibido no Indie em 2016, está no INDIE com seu novo filme Asako I & II. Lançado na competição do Festival de Cannes 2018, é baseado no livro da escritora japonesa Tomoka Shibasaki, que para o diretor lhe atraiu por dois pontos: a estranheza de uma mulher que se apaixona por dois homens com o mesmo rosto e a atenta descrição da vida cotidiana.


3 jovens mulheres com filmes brilhantes Helena Wittmann, Zsófia Szilágyi, Jagoda Szelc estão em première brasileira no INDIE 2018. Helena Wittmann em À deriva traz uma história de amor, amizade e a distância que os separa permeada de gestos e silêncios, que tem o mar como ator principal. Uma experiência sensória, sentimental. Um dia de Zsófia Szilágyi, Prêmio FIPRESCI na Semana da Crítica de Cannes, retrata a rotina de uma mulher-mãe, o conflito entre trabalho e a dedicação aos três filhos, além da angústia da suspeita do marido estar tendo um caso. Já Jagoda Szelc estreia com um filme de gênero: Torre. Um dia brilhante. Prêmio de Melhor Primeiro Filme no Polish Film Festival, o filme é um suspense centrado numa pequena cidade polonesa, onde a família se reúne para uma primeira comunhão.


3 artistas veteranos e seus filmes experimentais Johann Lurf James Benning Albert Serra As estrelas no cinema. Não os atores/estrelas do cinema, mas as estrelas no céu noturno dos filmes, o austríaco Johann Lurf compilou cenas de céus estrelados de 550 filmes em ★ (o diretor quer que o filme seja citado pelo símbolo e não pela palavra Star/estrela). O filme que estreou no Festival de Viena, em 2017, passou também por Sundance, Rotterdam e diversos outros festivais.

Uma câmera estática, um ambiente determinado e o tempo. Dois artistas e diferentes performances. Do célebre diretor americano James Benning, o Indie traz L.Cohen: a visão de um campo agrícola, no Oregon, observando a lua que passa, um pôr do sol e uma canção de Leonard Cohen. Recebeu o Grande Prêmio no festival Cinéma du Réel.

O diretor catalão Albert Serra volta ao personagem do Rei Luís XIV, do seu filme anterior A Morte de Luís XIV, com Rei Sol. Sai Jean-Pierre Léaud e entra o ator Lluís Serrat, um não-ator que já participou de diversos filmes de Serra. Proposto como uma performance, em uma galeria, as mazelas e a morte do rei em tempo real. Recebeu o Grande Prêmio da Competição Internacional no FID Marseille.


2 novos diretores PABLO SIGG FABRIZIO FERRARO com uma cinema original O diretor mexicano-suíço Pablo Sigg filma em Nueva Germania, uma colônia ariana fundada pela irmã de Friedrich Nietzsche, localizada no Paraguai, os dois descendentes que sobreviveram e vivem na região. Lamaland é o registro desse mundo isolado, o diretor, quase como mimetizado a aquela rotina solitária, consegue realizar um filme impressionante. Já em Os indesejados da Europa, o diretor italiano Fabrizio Ferraro retrata uma rota de fuga através dos Pirineus que levou antifascistas, estrangeiros e judeus em fuga da França ocupada. O filósofo Walter Benjamin era um deles.


Agradecemos a todos que nos apoiaram durante esses 18 anos de nossa existência!

Francesca Azzi e Daniella Azzi
Curadoras do Indie festival